Deixar partir

    


    Quero falar de um amor imenso, daquele jamais planejado ou esperado: minha irmã Madalena. 

    Ela abriu mão de ter uma vida, marido, filhos, porque já havia visto demais, presenciado todos os arranjos possíveis e perdido a esperança em vida melhor. Doou-se, então , aos irmãos e a nossa mãe, e principalmente a mim. Eu pedi muitas vezes para que vivesse mais para si mesma, recusei regalias financeiras, presentes, tudo que retirasse dela a possibilidade de investir em si própria, mas não adiantava, pois adiante estava ela me oferecendo ajuda. 

    Sem saber, ela me deu o suporte de que eu precisava, todo o tempo, sem cansar, ou melhor, ela sabia mais que eu mesma das minhas dificuldades e limitações. Mesmo morando distante, fui sua protegida, fui amparada em todos os meus desastres tentando construir minha independência. 

    A vida não me dava trégua. Minhas batalhas eram muitas: eu era autista e não sabia. Para minha sorte, ela me ensinou a desconfiar de tudo e de todos. Silenciar para não entrar em discussão (hoje, ouvindo/lendo sobre o Estoicismo lembro da sabedoria dela). Coisas que carreguei comigo e tentei seguir numa certa medida da minha percepção. Ela era pés no chão; eu, pés nas nuvens. Nossos sentimentos eram sinceros, verdadeiros. Uma das coisas mais importantes que ouvi dela foi "eu confio em você", poucas semanas antes de partir. Um ano antes, aproximadamente, tive a oportunidade de ler um poema dedicado para ela "Amor Fraternal", debaixo da jaqueira do nosso sítio, só nós duas, e a natureza como testemunha, emoldurando aquela cena. Voltar para minha terra e acompanhar seus últimos anos de vida compensou muitas decisões equivocadas de outrora.

    Ela se foi... E agora, aos meus 55 anos tento honrar seus ensinamentos e tudo que fez por mim. Não me sinto mais sozinha, seria egoísmo me sentir. Depois de tantas lições e tempo dedicados a mim é mais que hora de deixar partir, descansar em paz, com todo meu amor.

Lairte Souza

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