Deixar partir

    


    Quero falar de um amor imenso, daquele jamais planejado ou esperado: minha irmã Madalena. 

    Ela abriu mão de ter uma vida, marido, filhos, porque já havia visto demais, presenciado todos os arranjos possíveis e perdido a esperança em vida melhor. Doou-se, então , aos irmãos e a nossa mãe, e principalmente a mim. Eu pedi muitas vezes para que vivesse mais para si mesma, recusei regalias financeiras, presentes, tudo que retirasse dela a possibilidade de investir em si própria, mas não adiantava, pois adiante estava ela me oferecendo ajuda. 

    Sem saber ela me deu o suporte de que eu precisava, todo o tempo, sem cansar, ou melhor, ela sabia mais que eu mesma das minhas dificuldades e limitações. Mesmo morando distante, fui sua protegida, fui amparada em todos os meus desastres tentando construir minha independência. 

    A vida não me dava trégua. Minhas batalhas eram muitas: eu era autista e não sabia. Para minha sorte, ela me ensinou a desconfiar de tudo e de todos. Silenciar para não entrar em discussão (hoje, ouvindo/lendo sobre o estoicismo lembro da sabedoria dela). Coisas que carreguei comigo e tentei seguir numa certa medida da minha percepção. Ela era pés no chão; eu, pés nas nuvens. Nossos sentimentos eram sinceros, verdadeiros. 

    Ela se foi... E agora, aos meus 55 anos tento honrar seus ensinamentos e tudo que fez por mim. Não me sinto mais sozinha, seria egoísmo me sentir. Depois de tantas lições e tempo dedicados a mim é mais que hora de deixar partir, descansar em paz, com todo meu amor.

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